sábado, 14 de fevereiro de 2015

LOBA

Loba, onde será o nosso encontro?
O fecundo nos fez na mesma pia?
Basta a ideia de ti que tudo lumia?
Ou em ti descobrir-me-ia um outro?

Loba, sou carne nua crua sangrenta
ornamentada com deleitosa pimenta 

beije, beba e anote os teus caninos
oh, assassina de todos os instintos

Loba, confesso misterioso conto
o criador me fez para que sorrias
bendizendo nesse poema santo
o teu ventre desnudando alegrias

Leia-me com atenção e tu verás
os nossos destinos cruzados
brincando dois em ser um só ás
arauto dos bem-aventurados






UM RENASCIMENTO NA CRUZ

Se Jesus florescesse em nós, por que nos preocuparíamos se ele existiu ou não?
 
Se sobre o amor soubéssemos, por que somos ainda tão rígidos?

Se já não o negamos, por que estamos exilados na matéria?

Se fomos um, por que vemos dois?

Jesus, assassinado por seres como nós, humanos. Manso como um cervo, aceitou a sentença e se foi pedindo que nos perdoassem.

Agora, em nosso secular deserto, clamamos por seu novo nascimento em nosso interior que nos ajude também a aceitar a nossa cruz. Como uma criança que logo esquece a ofensa, contente, ele vem para o sincero buscador.

A cruz, símbolo da matéria, carne, dor, prisão, dualidade, tempo e espaço.

Jesus, o amor.

Jesus pregado na cruz...


Pintura: Cristo de São João da Cruz, 1951, Salvador Dalí.


Desenho de Cristo crucificado visto "de cima" feito entre 1574 e 1577 de João da Cruz que inspirou Salvador Dalí a pintar seu "Cristo de São João da Cruz".

O PRIMEIRO PENSAMENTO DIVINO

Eu estava em meio à natureza. Era fim de tarde, a metade do sol já tinha se escondido no horizonte. Naquele momento tive a experiência mística mais profunda de minha vida: todos os pensamentos sumiram e o nada de um profundo silêncio tomou conta do meu ser. Nesse brevíssimo instante, o êxtase aconteceu!

De repente, algo me fez sair daquele estado sublime, era meu corpo reclamando da enorme quantidade de mosquitos consumindo meu sangue, por esse motivo, sai do silêncio e tive um pensamento inicial: uma existência é sagrada demais, não consigo matar nenhuma dessas criaturas...


Pintura: O êxtase de São Paulo, 1649-1650, de Nicola Poussin.

QUEM SABE?


Imagine por um breve instante que as diversas ciências, as inúmeras obras de arte, as variadas filosofias e as incontáveis religiões sejam apenas reflexos de um mesmo ponto sagrado, eterno e infinito...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

AO OÁSIS

Nessa longa caminhada, o deserto escorria pelos meus pés
Nessa longa caminhada, ossos vigiavam meus olhos secos
Nessa longa caminhada, a areia sugou meu suor amargo
Nessa longa caminhada, a sede tomou e era a minha carne
Nessa longa caminhada, a saliva alheia muito me consumiu
Nessa longa caminhada, os passos se tornaram curtos
Nessa longa caminhada, minha trilha não foi e nem será de alguém
 
Quantas glórias só de espinhos cultivei em minhas mãos?

Aah, quantas curvilíneas miragens desviaram-me do Único Destino?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

ESPONTÂNEAS CRIATURAS

Se eu fosse capaz de criar mundos e seres, para a minha criação eu gostaria de ser um mistério no qual a minha existência, ao tornar-se uma quase inexistência, não interferisse na autonomia e auto-referência dos meus filhotes.
Pintura: A Criação de Adão, de Michelângelo Buonarotti,  1508-1512.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O VITRAL ACESO

Muitas pessoas não querem sair da escuridão, da brutalidade, da ignorância. Às vezes, é melhor ficar em silêncio e deixá-las lá, porque uma palavra amiga ou um gesto de amor para alguns funciona como um reforço na sua vontade de cair, pois vivem para contrariar sua própria natureza, se autoflagelam. 


Todo ritual envolve morte e renascimento. Os sábios já morreram diversas vezes. Os mais iluminados se tornaram o próprio ritual: a capacidade infinita de reunir de forma bela todos os cacos gerados pelo tempo e seus filhos. 


Na escalada para além do abismo, a vontade de levantar a cabeça para chegar ao topo unificante é indispensável. Os que fizeram esse caminho deixaram caixas de fósforos no calabouço. À medida que subimos, encontramos velas...


Foto: Catedral de São Sebastião na Cidade do Rio de Janeiro, de Glauber Medeiros Rezende.